Da desumanização

Semeei o chão com as palavras dele, antes disso, enterradas elas estavam, logo, acreditei ser nada mais justo que voltassem para a terra.

Ao contrário do que muitos acreditam, o solo da morte parece ser mais fértil que o da vida, a infinitude corre após o fechar dos olhos e assim as árvores crescem.

Fiquei aqui olhando o vazio, há um grito surdo no silêncio, uma dualidade inegável que, se confrontada, alimenta-se do desespero que a espreita e não deixa o que está morto morrer.

A morte é uma árvore que cresce, e para cada pessoa que fica, nasce uma árvore para aquele que morre. A verdade é que a morte só floresce em quem tá vivo, já que quem tá morto deixou de ser.

Não tinha percebido quão grande minha árvore estava, mas descansava embaixo de sua sombra havia tempos. O conforto daquele cenário me fazia manter aquela rotina: acordava, aguava e adubava minha árvore dele, e ali repousava até que se fizesse necessário repetir o ritual.

A cada passo que dava pensando em me distanciar daquele momento me fazia enraizar ao lado da morte, cultivei uma relação quase que simbiótica, como se antes o que da minha vida se alimentava de vida, agora se alimenta do que não é.

Apalpo a terra para sentir-me compreendida. Só aquilo que já foi chega próximo daquilo que não chegou a ser, são duas formas de não existir, duas formas de lembrar que estão tão distantes que já não fazem sentido. Se foi não voltará a ser mais e agora o que não foi também nunca terá sido, as duas não existências descansam da necessidade de serem reais.

Minha árvore cresce tão bela que me orgulho ao olhá-la, mas ao mesmo tempo que a admiro, ela me destrói, como se em algum momento do nosso pacto, ela me convencesse que precisa se alimentar de mim. E eu concordo, afinal, não fosse por mim, ela não existiria, mas não fosse por ela talvez eu cessasse de existir também.

Ilustração de Fernando Lemos
Ilustração de Fernando Lemos

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