fotografia revisitada

Em tempos tecnológicos quando a fotografia se perde na produção massiva de conteúdo por e para mídias digitais eu tenho feito o insistente trabalho de encará-la como produção artística.

Parece fácil ver obras fotográficas como uma produção artística consistente, mas para alguém que nasceu na era transicional saindo da fotografia de rolo de câmera para a popularização dos smartphones e a possibilidade de produção infinita, confesso que tenho uma grande dificuldade de enxergar a fotografia com a sensibilidade que ela merece.

Quando formatos de interação mudam nós mudamos também nossa percepção. Quando nossa percepção pede, passamos a produzir de formas diferentes, a linguagem, as imagens e tudo aquilo que permeia o processo comunicativo passa a ser reformulado, surgem emojis, GIFs, acrônicos quase ininteligíveis.

Acredito que foi com esse salto e a constante estimulação imagética ao qual somos bombardeados ao abrirmos o telefone que me perdi no entendimento da fotografia como forma de expressão.

Uma das primeiras coisas que fazemos ao olhar qualquer produção é formar um juízo crítico, ao fazer essa tentativa de resgate da minha sensibilidade vejo que há a necessidade de entender que tampouco importa a técnica, o que vem antes é a expressão, ou até o indivíduo, já que por trás de qualquer obra – julgue ela bem ou mal executa, aprazível ou não – há uma pessoa motivada, sensibilizada, que teve a necessidade de produzi-la, seja lá por qual razão for.

Tendo retrocedido então todo o processo que leva ao clique, passo a reconsiderar a fotografia como uma ferramenta de congelamento instantâneo, ela é quase o que Benjamim descreve como aura, um ponto único no espaço e tempo, independente do seu potencial para reprodutibilidade.

Para rever meu olhar sobre a fotografia recorro então à duas grandes e notórias exposições atualmente em cartaz em São Paulo, Irving Penn (no Instituto Moreira Salles) e German Lorca (no Itaú Cultural). Ambos fotógrafos com uma produção extremamente variada que abarca desde retratos, produções voltadas à publicidade, imagens sensíveis, (…) tem um olhar que pode parecer simples, fácil de reproduzir, mas são únicos. A produção de cada um é um reflexo não só de suas histórias pessoais, mas também da história da fotografia em si e do universo no qual estavam e estão – já que Lorca ainda é vivo e diga-se de passagem: ativo! – vivendo.

Para olhar então não há formula mágica, revisitar a fotografia me fez lembrar que não há o que se diga para convencer alguém de que algo é arte, as considerações históricas devem ser feitas, mas não se ensina um observador a entender, sua leitura é unicamente sua e quem dita seus entendimentos é sua percepção, aqui não há certo ou errado. u

Treinar o olhar não é lá também das tarefas mais simples, olhar é automático, mas viver não pode apenas ser, e contemplar arte é se demorar, é se derramar e voltar à forma uma e outra vez, até que você sinta, não precisando descrever ou definir, longe de nós sermos desaventurados o suficiente para ‘ter-quê’ opinar sobre tudo, mas nos demorar, ah, isso é preciso.

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