Humano x Gênio

As classificações hierárquicas constantemente feitas por nós em infinitas categorias vêm fundamentadas por ‘n’ construções culturais que obviamente provém de pensamento arcaicos. A inteligência, como nós a conhecemos, é um conceito ocidental. Hoje, mais do que nunca, acho importante deixar claro que não existem níveis classificatórios para pessoas já que não existe uma quantificação capaz de efetivamente numerar a quantidade de habilidade de alguém em determinada ação.

O psicólogo americano Howard Garner foi o responsável por desmistificar a inteligência, que era usualmente compreendida como uma habilidade única. Nos anos 1980, o estudioso publicou a Teoria das Inteligências Múltiplas, que traduz as habilidades dos seres humanos em categorias que devem ser avaliadas separadamente. Ainda de acordo com Garner é possível entender então que “Alguns indivíduos têm mais talento em umas áreas do que em outras (…) Por outro lado, não acredito que haja alguém igualmente brilhante em todas elas ”.

Trazendo essa análise da inteligência para um lado mais racional e abandonando o misticismo que paira em cima do saber, Garner estabeleceu oito critérios diferentes classificados como inteligência. Além desse novo entendimento possibilitada por H.G., ele salienta que o substrato biológico – ou a formação genética e consequentemente física das faculdades mentais – juntamente com os estímulos externos afeta o desenvolvimento das diferentes vertentes em cada indivíduo. Como o psicólogo ainda pontuou na sua entrevista à Revista Super Interessante em 2016, ele crê “(…) que todos os seres humanos têm todas as oito inteligências (…). No entanto, os indivíduos diferem uns dos outros por vários motivos, entre os quais os genes e as experiências de vida”.

Dito isto, existe uma associação interessante entre o que se chama inteligência e uma falta de habilidades sociais.

ZGym

 

 

“Eu sou um cérebro, Watson, o restante é mero apêndice”
– Sherlock Holmes

 

Na minha coletânea de referências tenho algumas personalidades que notadamente se encaixam nesse padrão, até porque por inclinações que eu não sei explicar sempre coloquei essas pessoas nesse lugar de destaque, separando sempre o lado gênio do lado humano, criando aí o que poderia vir a ser uma justificativa para tal comportamento.

Cientificamente falando, existem padrões de comportamento que se repetem em pessoas de “inteligência elevada”, o distanciamento das outras pessoas, o “não saber” participar do que chamamos de conversas corriqueiras, a rápida mudança de comportamento quando se introduz um assunto que o interesse na conversa. De longe esses aspectos podem ser relacionados à esta “alta” inteligência, mas não existem evidências que compelem tal tipo de comportamento.

Na minha lista então identifiquei infinitos padrões comportamentais que me levam a ser quem eu sou hoje, não que eu esteja aqui me colocando como uma pessoa que se define inteligente, mas pelo meu histórico de reconhecimento tenho uma certa inclinação a me ver em personagens pouco empáticos, que consideram mais o lado intelectual do que aquele que se importa por assim dizer.

Desde o famigerado Sherlock Holmes, Bukowski, House, até pessoas do meu círculo de convivência pessoal, a lista é uma pouco mais extensa do que eu gostaria. Recentemente comecei a assistir uma outra série sobre Holmes, que compreende sua existência numa atmosfera totalmente avessa à original, de Conan Doyle, mas o caráter do personagem obviamente fora totalmente preservado, e causou em mim certa aversão.

Aversão não por sua genialidade intocável, mas por seu distanciamento do que considero humano ou empático por assim dizer. Ao alcançar um nível de conhecimento e vivência intelectual temos plena consciência de como o homem funciona e consequentemente suas relações, não acredito que a aplicabilidade de toda essa inteligência não possa ser direcionada ao quesito. De forma bruta e direta me parece que o conhecimento que deveria aproximar é sempre um fator de distanciamento, como se as divergências de entendimento impossibilitassem de certa forma algum contato, em contrapartida vejo que não há motivo para o não compartilhamento desse entendimento já que o saber deve ser ensinado e não guardado como um trunfo.

Existe uma crítica constante relacionada a este comportamento, ele é ao mesmo tempo que vangloriado, repudiado, mas acredito que seja necessário entender as raízes desse fechamento que não se mantém na comparação e diferença de capacidade cognitiva das pessoas, mas numa sensibilidade rudimentar que traz consigo essa veia analítica.

Estar hábil a reparar coisas que as outras pessoas comumente não observariam requer uma atenção grande, uma capacidade de construir relações que são talvez superficiais ou distante demais dos outros para que eles percebam. A análise é precedida então por importância, aquele velho ditado que não se presta atenção no que não se gosta. Isso não significaria, porém um gostar efetivo daqueles que estão envolvidos na situação analisada, mas revela uma determinada importância relativa à existência desta.

Temos aqui então um paradoxo, a importância no cerne intelectual se distancia desta mesma no mundo físico, e aparentemente não é possível trazer à tona esse sentimento tão ‘primitivo’.

Seria a demasiada importância um motivo do fechamento para um contato mais significativo? Se você a priori já apresenta uma sensibilidade aguçada torna-se um alvo de sofrimento quase que inerente, tendo nesse entendimento do outro um ‘ponto fraco’ que provoca a antes mencionada distância.

cropped-blog-head-high-def19.png

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s