Brillo Box: Uma ruptura na história da arte

  1. O artista: Andy Warhol

Andy Warhol foi um dos artistas mais influentes da segunda metade do século 20, criando algumas das imagens mais reconhecidas já produzidas. Desafiando as visões idealistas e as emoções pessoais transmitidas pela abstração, Warhol abraçou a cultura popular e os processos comerciais para produzir trabalhos que atraíam o público em geral. Ele foi um dos fundadores do movimento de arte pop, juntamente com Duchamp desafiando a própria definição de arte. Os riscos artísticos tomados e a constante experimentação com temas da cultura considerada não erudita e meios de comunicação o tornaram pioneiro na produção artística plástica. Seu senso de estilo não convencional o ajudaram a alcançar o status que ocupa até hoje.

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Depois de se formar no ensino médio aos 16 anos de idade, em 1945, Warhol freqüentou o a Carnegie Mellon University, onde estudou design pictórico. Pouco depois de se formar, em 1949, mudou-se para Nova York, onde trabalhou como ilustrador comercial. Durante a década de 50, Warhol continuou sua carreira bem sucedida em ilustração comercial, trabalhando para várias grandes revistas, como a Vogue, Harper’s Bazaar e The New Yorker. O artista também produziu peças publicitárias, as quais já eram particularmente notados, e concedera-lhe uma notoriedade local. No início da década de 1950, Andy reduziu o nome de Warhola para Warhol, e decidiu dar início à sua carreira  como artista, sua experiência em arte comercial, combinada com sua imersão na cultura popular americana, influenciaram seu trabalho de forma notável.

Já no começo dos anos 60, Warhol começou a usar propagandas e tiras de quadrinhos em suas pinturas. As obras derivadas dessa fase já exibiam traços do viria a ser denominado como Pop Art, e são caracterizadas por estilos mais expressivos e pintorescos que incluem pinceladas claramente reconhecíveis e traze uma influencia clara do expressionismo abstrato.

Nas obras subsequentes, como as suas Brillo Boxes (1964), Warhol traz um manifesto contrário ao qual vinha se baseando, e remove quase que  completamente qualquer evidência da atuação do artista.

  1. A obra: Brillo Boxes (1964)

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Usando a técnica de serigrafia em madeira compensada, Warhol apresentou o expectador com réplicas exatas de produtos comumente usados ​​encontrados em lares e supermercados. A obra apresentada é uma coleção de  peças empilháveis, são esculturas que podem ser organizadas de várias maneiras no espaço e cada caixa é exatamente a mesma, uma não é melhor do que outra, elas são idênticas. Warhol traz esses produtos exatamente iguais, não apenas entre si, mas também idênticos àqueles encontrados nos supermercados da época, dessa forma o artista transforma sua obra em quase que um enigma, ou uma ponte direta entre o que se vê como mundo das artes e o mundo real.

Como coloca Arturo Danto (2012), a Brillo Box é um verdadeiro ícone filosófico, que traz à tona o questionamento e a dúvida do que pode ser considerado ou não, e se existe um limiar de definição para aquilo que se chama arte ou se basta inserir um determinado objeto num espaço pré-concebido como uma galeria para elevá-lo ao estado de objeto de arte.

A Brillo Box é emblemática da filosofia, e se assemelha, conceitualmente, a uma pedra filosofal da contemporaneidade, de um tempo pós-histórico para a arte, colocando um ponto de interrogação ainda maior diante das definições estabelecidas durante o curso da história da arte.

A Brillo Box é um objeto artístico – ou não artístico – que reúne ordinário e extraordinário no mesmo tempo e espaço, trazendo à tona o peso daquilo que se considerava parte do ‘mundo real’ e dos objetos cotidianos e as clamadas obras. Warhol colocou em voga o mundo banal com esta caixa de sabão ao coloca-la nos espaços expositivos, e de acordo com Danto ele “celebrou do jeito que ele era” (2001, p. 109), aplicando à arte não apenas seu aspecto e responsabilidade de reflexão filosófica, mas colocando em contrapartida como o que é cotidiano pode ser, efetivamente, arte.

2.1. Uma análise da Pop Art: Entendendo as origens da Brillo Box

O movimento artístico que antecedeu o nascimento do pop da década de 1960 nos Estados Unidos, é conhecido como expressionismo abstrato, representado, entre tantos outros artistas, por Jackson Pollock. As obras contempladas por este, além de abstratas, são marcadas por um estilo chamado de gestual, pois nelas pode-se perceber claramente a marca da ação do artista. Nessas obras, a presença do artista ficava em evidencia, sua marca é inconfundível.

Outro importante aspecto que seccionava a produção da arte pop do expressionismo abstrato, era o uso de técnicas de reprodução da imagem, como a serigrafia, o que – ao ver dos críticos da época – tornava a obra ‘menos original’. Essa técnica foi utilizada inúmeras vezes por Andy Warhol e Lichtenstein, fazendo-se valer de fotos de revistas, imagens de histórias em quadrinhos, fotografias de artistas famosos, e a partir da reprodução de algo já existente, criavam ao mesmo tempo um reconhecimento e um estranhamento, pois as imagens estavam deslocadas de seu veículo e propósito original. A imagem original, saturada pela sua exposição em massa, era facilmente reconhecida pelo apreciador da obra, o reconhecimento imediato servia como uma conexão instantânea entre espectador e obra.

Ainda que a pop art não carregue o mesmo ideal não conformista e anti-burguês apresentado anteriormente pelo movimento dadaísta, já que não questiona diretamente a transformação da sociedade em uma sociedade de consumo, ao aproximar suas obras dos ícones célebres da época e trazer aquilo que podemos denominar de uma ‘estética do descartável’, os artistas pop seguiam a corrente dadaísta, na medida com a qual quebravam a separação entre gosto popular e gosto refinado, entre o kitsch e arte considerada erudita. Diferente do expressionismo abstrato, gestual, não realista, os artistas pop trouxeram a arte de elementos cotidianos, de massa para dentro da esfera fechada das belas artes. Em várias de suas obras, Danto reitera a importância dos quadros e esculturas de Andy Warhol para a filosofia da arte.

Desde a Grécia antiga já pairava a discussão sobre “o que é arte?”, e o que podemos observar é que desde Warhol, a pergunta da filosofia da arte é “o que faz com que dois objetos indiscerníveis do ponto de vista material e ótico possam, no entanto, ser diferentes? Um ser arte e o outro não?”. Somente com essa segunda formulação, continua Danto, podemos fazer verdadeiramente filosofia da arte. O marco referencial para essa mudança foi justamente a  exposição em 1964 na Galeria Stable em Nova Iorque das caixas de Brillo Box.

As caixas empilhadas com a logomarca da esponja Brillo eram dispostas como se estivessem no armazém do supermercado, não tinham diferença alguma das caixas originais, a não ser pelo material, as utilizadas em supermercados em feitas de madeira, as de Warhol de cartão.

Enquanto o objeto considerado comum está automaticamente aliado à uma finalidade, o objeto-arte carrega significado e seu entendimento implica recorrer a ocorrências culturais e biográficas que em teoria revelam um novo panorama de entendimento, uma nova reflexão.

Considerando este viés, ao estudar a Pop arte, vemos que o sentido figurativo e belo daquilo que se denomina arte desaparece, e o que resta é apenas a arte que se pensa a si mesma e o contexto na qual esta está inserida. Essa ruptura com as barreiras entre a arte kitsch e a as belas artes, reflete uma transformação profunda na sociedade. A pop art representou o rompimento com o espírito do modernismo (Danto, 2009, p. 31), que não admitia a mistura de estilos, tendências, motivos e orientações.

Ainda que possamos dizer que a pintura pop foi precursora de um novo caminho nas artes, Andy Warhol não considerava suas obras como propostas vanguardistas, já que elas iam diretamente contra a ideia do artista como um interlocutor especial com os sentidos mais puros da arte. Sua obra seguia propositadamente um gosto popular, acessível, e suas ideias não objetivam projetar na obra uma subjetividade profunda do artista, mas sim uma reflexão do mundo/momento em que estavam inseridas.

 

 

BIBLIOGRAFIA
BELTING, Hans. Art History after modernism. Chicago, The University of Chicago Press, 2003.
DANTO, Arthur. After the end of art. Princeton. Princeton University Press, 1997
DANTO, Arthur. Andy Warhol. Trad. Vera Pereira. São Paulo: Cosacnaify, 2012.
DANTO, Arthur. O filósofo como Andy Warhol. Originalmente publicado em Philosophizing Art. Selected Essays. Berkeley: University of California Press, 2001. P. 61-83. http://www.cap.eca.usp.br/ars4/danto.pdf < Acessado em 28/07/2017 >.
WARHOL, Andy. The Philosophy of Andy Warhol (From A to B and Back Again). New York/ London, Harcourt Brace & Company, 1975.

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